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GloboPop: O novo app da Globo vai flopar?

Uma análise estratégica do GloboPop: o que ele revela sobre o ecossistema da Globo e por que isso importa para a Creator Economy brasileira.

4 de maio de 20266 min de leituraJúlia GrecoMarketing · Data Analysis

Os jovens brasileiros não assistem mais TV, e o GloboPop pode parecer uma tentativa desesperada da emissora de disputar pela atenção desse público, que se concentra nas redes sociais.

Mas essa é uma leitura superficial.

Com uma visão de mercado, o que vemos é uma potência brasileira fazendo uma aposta alta, na linha de frente de uma disputa contra gigantes multinacionais.

Uma batalha para tentar manter a atenção, os dados, a cultura e o dinheiro do público brasileiro dentro do Brasil.

O que é o GloboPop

O Globopop é o novo app de vídeos curtos da Globo, com consumo em feed, que reúne novelas verticais, conteúdos produzidos pelo elenco da Globo, materiais de parceiros convidados, e vídeos provenientes de portais de notícias como G1 e Gshow.

Podemos chamar de "O TikTok da Globo", mas com uma diferença importante: ao contrário das redes sociais tradicionais, o GloboPop tem foco na produção e veiculação de conteúdo autoral. Até o momento não permite que usuários criem e publiquem seu próprio conteúdo.

Preview visual do GloboPop e do ecossistema de vídeo curto da Globo.

Por que a Globo criou o GloboPop?

Com a atenção cada vez mais dividida entre a TV e o feed, começa um movimento importante para conectar a mídia tradicional e a mídia digital. Não se trata de uma batalha entre TV e Internet, mas sim de uma ponte onde as duas formas de comunicação se complementam.

Depender das plataformas digitais como fonte de renda e distribuição traz inúmeras inseguranças. Falta de controle sobre o que é entregue, alta concorrência pela atenção, e diluição de lucros.

Plataformas como o Instagram e o TikTok entregam visibilidade e conexão com o público, mas é preciso estar atento aos interesses particulares dessas empresas e ao poder que elas exercem por meio dos algoritmos: o controle do que é visto, por quem é visto e quando é visto.

O GloboPop é uma resposta ao cenário atual da Creator Economy e do universo digital de entretenimento e informação.

O que a Globo tem a ganhar

Estamos falando de uma gigante brasileira, acostumada a ter total controle sobre a narrativa e sobre os meios de distribuição. Com história, credibilidade, recursos e poder para influenciar, informar e entreter uma nação como o Brasil.

A Globo não quer e não deve ficar à mercê de algoritmos e empresas multinacionais que mudam as regras a todo momento e decidem o seu alcance.

Além disso, existe a questão da monetização por anúncios e conteúdos publicitários. Tradicionalmente, essa é uma das maiores fontes de renda da emissora, mas no cenário atual esse dinheiro acaba sendo diluído entre outras plataformas.

O GloboPop tem potencial de recuperar parte desse controle e dessa monetização.

E dá pra ir ainda mais fundo.

Com um aplicativo próprio, a Globo não só controla a programação, mas também tem acesso total aos dados de visibilidade, comportamento e engajamento da audiência.

Esses dados são importantes porque, através deles, encontramos os padrões de comportamento e consumo que são capazes de guiar estratégias publicitárias, decisões editoriais e até encontrar meios de influenciar a cultura.

O que o GloboPop entrega ao usuário

In short: Brasilidade e cultura.

Entretenimento feito por brasileiros e para brasileiros.

A chance de movimentar e fortalecer a economia de entretenimento e tecnologia no Brasil.

E a oportunidade de não depender exclusivamente de plataformas internacionais para consumir, distribuir e valorizar a nossa própria cultura.

A Globo é uma grande potência cultural do Brasil e os brasileiros são uma grande potência de engajamento nas redes sociais. Investir em novas tecnologias que sirvam a esse público e à economia brasileira é uma escolha inteligente.

Vamos aos números?

O Big Brother US 27 teve uma audiência relevante para os padrões da TV americana: 5,1 milhões de espectadores por episódio. Nas redes sociais, o programa acumulou 10,76 bilhões de impressões sociais potenciais e 2,95 milhões de menções.

Já o BBB26 teve uma audiência muito forte para os padrões da TV brasileira atual, com média diária de 26,3 milhões de pessoas. Nas redes, ultrapassou 41 bilhões de visualizações só no ecossistema Globo e gerou mais de 129 milhões de menções espontâneas.

Isso significa que o BBB26 teve 5 vezes mais público que sua versão americana na TV (416% mais audiência média), mas gerou quase 44 vezes mais conversas nas redes sociais (4273% mais menções).

Ou seja, a diferença de audiência já era grande, mas a diferença de movimentação social foi muito maior.

Comparativo visual entre audiência de TV e movimentação social em torno do BBB.

Toda essa movimentação nas redes sociais impulsiona o programa e a rede Globo, mas deixa muito dinheiro na mesa para as plataformas onde essas menções ocorrem.

O que a Globo tenta fazer com o GloboPop, é trazer essas conversões e o "ouro da internet" (a atenção do público), para si.

Trata-se, sim, de lucro e estratégia de negócios, mas além disso, se trata de tomar posse de um espaço que pode e deve ser nosso.

O Brasil tem um potencial criativo e cultural imenso.

Falo como uma mulher que viveu e trabalhou em meios de comunicação nos EUA, no Reino Unido e no Brasil: nós ainda não sabemos valorizar a potência criativa que somos.

É preciso apoiar, incentivar e participar de iniciativas que beneficiem o público, os criadores e as empresas brasileiras.

É por isso que eu vejo o GloboPop como uma grande oportunidade.

Mas será que ela será usada da forma correta?

Onde o GloboPop pode dar errado

Vamos a minha humilde listinha de recomendações:

  • O aplicativo precisa servir, em primeiro lugar, ao público e não aos interesses da rede Globo. Parece óbvio, mas muitas empresas erram nesse ponto. Colocar a experiência do público acima dos interesses comerciais, nesse primeiro momento, é a única chance real de prosperidade, em meio a concorrência.
  • O algoritmo de entrega dos conteúdos precisa estar em constante desenvolvimento e otimização. Vai levar tempo para amadurecer a melhor forma de entregar conteúdo a cada usuário. O investimento em profissionais de tecnologia e análise de dados que informem este algoritmo, é fundamental.
  • Estratégias que reforcem a repetição. As pessoas já têm o hábito e familiaridade com outras plataformas. Criar incentivos para que o público entre no app diariamente fará toda a diferença. Acredito que, inicialmente, essas estratégias devem estar aliadas a outras plataformas, ao invés de tentar competir de frente.
  • Falta co-criação e presença do público. Na minha visão, o maior erro do GloboPop até agora, é não permitir que os usuários participem da produção do conteúdo. As pessoas querem ser vistas e ouvidas, e o app precisa de ferramentas para fazer isso acontecer. O público quer comentar e responder com vídeos. Quer recriar momentos icônicos e memes. Quer espaços e comunidades dentro do app, onde se sintam pertencentes.

Se for bem executado e souber priorizar o público, o GloboPop pode se tornar uma das iniciativas mais importantes da Globo no digital. Trazendo audiência, dados e receita de volta para dentro do seu próprio ecossistema.

Além disso, pode representar um avanço para o Brasil em software e entretenimento. Gerando empregos, cultura e maior rotatividade de recursos publicitários em escala nacional.

Se não, corre o risco de ser apenas mais um aplicativo disputando atenção no feed.

E deixa a porta aberta para que outras tecnologias tomem esse espaço e revolucionem a Creator Economy brasileira antes que o Brasil perceba o tamanho da oportunidade que tinha nas mãos.

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